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Como a crise financeira afunda a Ponte Preta de volta à Série C menos de um ano após o título

Foto do escritor: Eichenberg, Lobato, Abreu & Advogados Associados
Eichenberg, Lobato, Abreu & Advogados Associados
1 de set.
5 min de leitura

A crise na Ponte Preta não iniciou quando o time precisou recorrer a garotos da base para evitar um W.O. contra o América-MG pela Série B no último fim de semana. O clube já está mergulhado em uma crise financeira antiga, que esteve presente mesmo quando a equipe conquistou a Série C em 2025. Desta vez, o resultado em campo é abalado pelas dívidas, e o caminho parece ser novamente para a terceira divisão.


O time é o lanterna da Série B, com 10 pontos em 25 jogos. A probabilidade de queda é de 99,994%, segundo o Departamento de Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


Outra porcentagem que assusta é o aumento do endividamento do clube desde a última vez que jogou a Série A. O passivo subiu 55%, de R$ 154,2 milhões em 2017 para R$ 239,8 milhões em 2025.


A materialização disso, em uma greve do elenco, é o problema mais recente. Os jogadores reivindicam valores em atraso, incluindo salários e direitos de imagem. Em alguns casos, os vencimentos devidos chegam a sete meses. Há situações em que houve pagamento parcial a alguns atletas.


“Há uma nuvem de incertezas que pairam sobre nós, eis que a atual diretoria abandonou o dia a dia do clube e, além dos atrasos salariais, estamos sem qualquer satisfação ou garantia”, disse a nota que comunicou a greve dos jogadores. Além dos jogos, eles paralisaram os treinamentos.


A reportagem do Estadão solicitou à assessoria de imprensa da Ponte Preta um posicionamento sobre a situação, mas não obteve resposta. O clube também não informa um prazo para resolver as pendências com os jogadores.


Ainda que pelo menos 25 atletas tenham assinado a paralisação, o vice-presidente e diretor de futebol, Marco Antônio Eberlin, acredita que alguns deixaram de treinar apenas em solidariedade aos colegas.


“Isso foi uma situação de solidariedade, principalmente com cinco jogadores que têm um atraso maior no clube”, falou em entrevista à Rádio Bandeirantes Campinas, em que também negou o “abandono”: “Eu falo com os meus jogadores todos os dias, até porque eles querem cobrar e têm de cobrar o staff maior”.


Em maio, Eberlin já havia afirmado que a Ponte Preta planejava colocar a folha salarial em dia até o fim daquele mês. Isso não aconteceu.


A Ponte Preta tem ainda um Regime Centralizado de Execuções (RCE), mecanismo judicial que reúne diferentes credores. A dívida apenas na ação é de R$ 32,8 milhões. Em julho, o clube solicitou a liberação de R$ 3,4 milhões bloqueados para quitar os salários, mas a Justiça não liberou.


O entendimento foi de que isso seria um desvio de finalidade, já que os valores penhorados na ação servem para quitar as dívidas que estão inseridas no RCE. A Ponte Preta havia oferecido um precatório como garantia, o que a Justiça não considerou adequado.


Também não foram pagas cobranças junto à Fifa e à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), o que levantou transfer bans. Assim, 11 jogadores com os quais a diretoria chegou a ter acerto para reforçar o time na Série B sequer puderam ser inscritos.


Foi esse um dos motivos que levou o técnico Márcio Zanardi a pedir demissão após a greve ser instaurada. “Não havia mais condições de dar prosseguimento ao trabalho que vinha sendo realizado”, publicou o treinador.



Gestão vê SAF como único caminho para a Ponte Preta


Os transfer bans foram determinantes para a saída de Zanardi. Para seu lugar, foi contratado Gilson Kleina, que chegou para a sexta passagem na Ponte Preta no que chamou de “maior desafio” da carreira.


“Essa decisão passa pela história que eu tenho com a Ponte Preta. É o clube que me projetou nacionalmente, é um clube tradicional e eu tenho a oportunidade de ser o quarto treinador com mais jogos. É um momento delicado e eu precisava aceitar por conta do respeito e carinho que tenho pela instituição. Meu objetivo é ajudar na reconstrução do clube. E, claro, que isso não passa só por mim. Passa por todos”, disse o técnico, que prometeu se reunir com os jogadores para “tentar encontrar um consenso para terminar a Série B da forma mais digna possível”.


A gestão da Ponte Preta vê a transformação em uma SAF como um caminho para solucionar a crise e diz ter uma proposta que aportaria, ao todo, R$ 1,1 bilhão no clube.


O Conselho Deliberativo já aprovou a ideia, mas ainda resta uma assembleia. Ela aconteceria no dia 24 de agosto, mas liminares judiciais impediram que a sessão fosse aberta. Houve confusão no Estádio Moisés Lucarelli e protestos de parte da torcida que é contrária à medida.


“Existe uma hecatombe financeira e a única solução para resolver essa hecatombe é transformando a Ponte Preta numa sociedade anônima. Eu sempre fui contra e ainda sou contra, porque eu queria esse escudo sendo da torcida, sendo do seio do pontepretano. Mas hoje a única maneira de dar uma condição para a Ponte Preta se reestruturar é com dinheiro externo”, defendeu Eberlin.


A ação dos jogadores da Ponte Preta ainda não configura um processo judicial. Ainda assim, eles estão representados por Thiago Rino, advogado especialista em direito desportivo. “Eu não vejo a SAF como a solução milagre para nenhum clube”, opinou ao Estadão.


“SAF não é a garantia de melhora. Porém, se você observar a situação deficiente da Ponte, eu concluo que, para o caso específico, a SAF é a única saída para resolver essa demanda”, ponderou.



Jogadores de futebol podem entrar em greve como na Ponte Preta?


A Lei Geral do Esporte permite ao atleta recusar-se a competir por organização esportiva quando seus salários, no todo ou em parte, estiverem atrasados em dois ou mais meses.


“Caso o inadimplemento dos salários permaneça, é possível o ajuizamento de ações judiciais, com a finalidade de cobrança de todos os valores em atraso, bem como de que os atletas pleiteiem a rescisão indireta do contrato de trabalho, que ocorre quando existe a ocorrência de uma falta grave cometida pelo empregador, no caso, o clube”, explica Gustavo Akira Sato, coordenador jurídico trabalhista do Eichenberg, Lobato, Abreu & Advogados Associados.


Ele elucida que, caso a situação se judicialize, pode acarretar a “rescisão dos contratos, em que o clube deverá, ainda, arcar com as verbas rescisórias dos atletas que demandarem, em caso de procedência dos pleitos”.


A advogada trabalhista e sócia do Pessoa & Pessoa Advogados Altum, Djulia Raphaella, aponta que os jogadores estariam liberados inclusive para assinar com outros clubes. “Reconhecida a rescisão por culpa do clube, o atleta fica livre para se transferir para outra organização esportiva, nacional ou estrangeira”, diz.


O Sindicato de Atletas São Paulo publicou uma nota dizendo que acompanha o cenário de atrasos salariais nos clubes paulistas e mantém um radar ativo sobre situações que possam comprometer os direitos dos atletas profissionais.


O órgão esteve em março no CT do clube em reunião com os atletas. Um mês depois, a entidade procurou a diretoria e participou de tratativas para a regularização dos pagamentos.


“O sindicato é acionado pelo trabalhador, e não pela repercussão do caso na mídia. Da mesma forma, não possui poder para determinar diretamente pagamentos ou impor sanções esportivas aos clubes”, disse um trecho do comunicado.


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